Parentalidade Digital (1ª Parte)

A era digital surgiu recentemente na parentalidade, sendo desconhecida na infância da maioria de nós. Sem histórias ou reflexões com as quais possamos aprender. Apelativa e controversa, levanta questões prementes, sendo uma das causas de maior conflito entre pais e filhos, de modo transversal a todas as faixas etárias.

Curiosamente, a relação da parentalidade com o mundo digital começa, como quase tudo na parentalidade, antes mesmo da existência de uma criança.

São muitos os objectivos com que nos mantemos ligados: para trabalhar, por entretimento, por fuga (para nos abstrairmos da realidade) ou, mais grave, como vício (quando começa a afetar negativamente outras áreas da nossa vida).

Começamos por introduzir os nossos filhos no mundo digital, quando na sua presença, estamos ligados aos ecrãs.

A qualidade (o que fazemos) e a quantidade de tempo passado no mundo digital, irá moldar a relação que os nossos filhos irão estabelecer com os ecrãs.

Os bebés/crianças são esponjas, não se deixem enganar pelo tamanho ou pela não existência de comunicação verbal! Eles percebem a profundidade, quase hipnótica com que nos conectamos aos ecrãs. Despertando ainda mais a sua curiosidade. 

Desde cedo, começam a ter um contacto com o mundo digital, seja para entretimento conjunto, como por exemplo, escutar uma música enquanto a tentamos cantar/dançar com eles. Ou, para os manter entretidos/sossegados, durante aqueles minutos em que precisamos de algum tempo para nós, seja para cozinhar, responder a um e-mail, tomar um banho, falar mais calmamente (sem ser interrompido) com o companheiro, ou até para arejar pelas redes sociais. 

Quando a parentalidade é vivida com dia-a-dias muito preenchidos, com pouca/nenhuma rede familiar de suporte, acaba por ser um babysitter invisível que nos surge em casa. Uma possibilidade de fazer uma pausa, num mundo demasiado agitado, num looping constante. Começa a ser utilizado de forma inofensiva, mas se não tivermos consciência do grau de utilização e da razoabilidade, face à imaturidade dos nossos bébés/crianças, rapidamente se pode tornar num hábito/problema difícil de combater.

Um mundo tão deslumbrante que rapidamente controla todos, torna reféns bebés, crianças, adolescentes e adultos!

Uma ferramenta com limites muito ténues, que tanto pode proporcionar apoio como uma negligência silenciosa!

Afinal até onde é aceitável, quais os limites?

É um mundo com areias movediças, sendo fundamental ter consciência da nossa intenção enquanto pai/mãe e ter presente os valores que nos irão ajudar a avançar, sem nos afundarmos!

É nossa função ajudar os nossos filhos a conseguirem comer, ou aprenderem a esperar/estar sem estarem dependentes de um ecrã! A manterem interesse no mundo físico, a curiosidade de exploração, a sensação de tédio e o fascínio de encontrar no “nada” um mundo de descobertas fascinante!

O mundo digital, pode-se tornar num mundo com duas faces, se não colocarmos limites conscientemente!

O principal desafio do mundo digital não começa na parentalidade, mas na nossa individualidade!

Na realidade, a parentalidade digital é como a parentalidade no seu todo!

É tanto mais difícil, confusa e desafiante, quanto menos consciente for vivenciada!

 

Inês Gaspar (Psicóloga, Coach e Facilitadora de Parentalidade Consciente)